BRASIL, Centro-Oeste, Mulher, de 26 a 35 anos

 

   

 
 

   

   


 
 
Monte de merda dentro da mesma privada



Vida boa é a do vizinho.

Uma vez estava eu na sala de espera pra mais uma seção de terapia. Uma sala pequena, amarela, duas poltronas, revista, e uma música alta pra que a gente não ouça os segredos mais sórdidos que estão sendo ditos lá dentro. Uma pena... Como eu gostaria de ouvir.

Um dia havia uma menina saindo do consultório. Uma menina de mais ou menos 12 anos de idade, loira, olhos verdes, branca, bem cuidada, com roupinha de pré adolescente... Uma gracinha! Me cumprimentou e foi embora.

Que problema poderia ter uma menina tão linda, tão nova, com cara de tão bem cuidada?

Como quem não quer nada, puxando um assunto aqui, outra alí pra ver se minha terapeuta caía sem querer na minha conversa, e sim, ela caíu.

A menina com somente 12 anos (acertei a idade!) já havia morado no Japão, na Índia, em Paris, em Londres, em Dubaie mais uma pancada de país. Falava fluentemente francês, espanhol, inglês e alemão. Rica, filha de diplomata.

Aí eu entendi tudo! Ela tinha tudo, menos o pai, amigos... A mãe cansou de viver viajando e resolveu parar no Brasil. E agora ela vê o pai uma vez por ano, no natal, e as vezes, nem pra isso ele consegue licença.

Não tem amigos. Já que toda vez que faz amigos, logo precisava mudar de país de novo.

Vida boa, é a vida dos outros né?!

Esses dias tbm me peguei na mesma situação.

Cheguei, sentei, e cumprimentei uma moça que estava lá esperando uma amiga sair da consulta. Ficamos caladas, nao gosto muito de conversar com quem nao conheço, e tem época que eu nao gosto de conversar nem com quem conheço.

Então ficamos nós e a música alta... Tratei de me entreter com meu ipad, mas percebi de lance de olho que ela me olhava muito. Mas nao era um olhar de lésbica, era um olhar de quem ia puxar assunto comigo. E eu pensei: "Por favor, não fala comigo! Por favor!"

Levantei e fui ao banheiro, quem sabe assim ela talvez desistisse do possível assunto... Arrumei o cabelo, retoquei o batom, sentei na tampa do vaso pra dar um tempo até ela me esquecer ou quem sabe a amiga dela sair.

Saí do banheiro e pro meu desespero era o mesmo olhar...

Posso reivindicar meu direito de ficar calada????????

Não, ela tava decidida!

Ok, então vamos lá! Olhei pra ela como quem diz: pode falar!

E ela disse:

- Não consigo entender como uma pessoa como vc faz terapia?

- Pq não?

- Vc é nova, tão bonita, tão bem arrumada, malhada, bem maquiada, parece inteligente... Que problema uma pessoa como vc pode ter?

Não dei um fora na mulher pq a pergunta era viável, já que eu mesma já havia me feito a mesma pergunta em relação a menina loirinha de antes. Ou seja, se a pergunta dela era idiota, a minha tbm era, e eu tenho muitos defeitos, mas idiotice não é um deles!

Respondi:

- É justamente esse. Minha mania de buscar a perfeição tanto por dentro, quanto por fora, torna impossível meu convívio com as outras pessoas.

Ela fez cara de quem não entendeu... E eu odeio não conseguir ser clara (mania de perfeição, lembra?).

- É assim: Eu não gosto de mentira, então minto, e se eu consigo não mentir, acredito que todos tbm consigam, portanto, nao aceito mentira. Sendo assim, mentira não tem perdçao, pq ela nao precisava ser dita. E sou assim em relação a tudo: traição, pessoas em cima do muro, falsidade, etc. Estou aqui pra conseguir me dar o direito de errar, e conceder aos outros o mesmo direito.

Ela finalmente entendeu, e perguntou:

- É dificil isso?

- Muito. Em relação a mim pq quando eu erro eu fico em depressão, pq eu nao poderia de forma alguma ter feito. O que deveria ser um simples: Errei, foi mal! E pronto.

- E em relação aos outros?

- Eu me isolo. Pq não suporto ter que conviver com tanta coisa errada. Ao invés de deixar pra lá simplesmente.

A amiga ela sái do consultório, ela levanta e diz: Tchau, boa sorte!

Uma pena que a sorte nunca foi minha amiga...

Bjo, bjo

Gabi

 



Escrito por Gabi. às 17h30
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